(MEU) NOVO AFFAIR DE CARNAVAL
parte 1
É ou não é
A oitava maravilha
Que bonito visual
—“Nostalgia”, do sambista Zeca da Casa Verde, responsável pelo primeiro título de campeã do Carnaval paulista da Sociedade Rosas de Ouro em 1983
As tecnologias brasileiras mais poderosas são origem do sincretismo criado pelo nosso processo colonizatório. É uma triste história marcada por sangue indígena e genocídio negro. Uma realidade que precisa ser enfrentada e está sendo ressignificada pela intelectualidade e classe artística não-branca no Brasil.
Uma dessas tecnologias é o samba. Embora os ritmos africanos já estivessem sendo popularizados no Rio de Janeiro desde o fim do século XIX, historiadores estabeleceram que o marco da história do samba no Brasil foi “Pelo telefone”. A composição foi criada pelo encontro dos sambistas Donga e Mauro de Almeida, gravada no dia 6 de novembro de 1916. Podemos, então, estabelecer que, assim como os filhos do Carnaval, a origem do samba também é do signo de escorpião.
Terreiros musicais originados de reuniões de práticas religiosas africanas, principalmente o candomblé, as quadras de Escola de Samba são parte intrínseca da história brasileira e da composição meio conservadora e super contemporânea da nossa cultura. “Pelo telefone” foi, provavelmente, escrita nas imediações do terreiro de Tia Ciata, a mais famosa das tias baianas, que foram, em sua maioria, ialorixás do Candomblé que trocaram Salvador pelo Rio de Janeiro por causa das perseguições policiais aos frequentadores de terreiros. Não posso afirmar que essa composição foi ao papel pela primeira vez em seu terreiro, mas Donga era assíduo frequentador dos cuidados espirituais do terreiro de Tia Ciata. Nesse quesito, minhas fontes são as vozes da minha cabeça.
Em seu livro “Orixás no terreiro sagrado do samba: Exu e Ogum no Candomblé da Vai-Vai”, a jornalista e acadêmica paulistana Claudia Alexandre discorre sobre a íntima relação das Escolas de Samba e os terreiros de Candomblé. A publicação é resultado de sua dissertação de Mestrado. No texto, Claudia destaca a cosmovisão africana que fundamenta as Escolas de Samba, onde Sagrado e Profano não se separam.
Sobre a Vai-Vai, a autora destaca a negritude do Bixiga, bairro central de São Paulo, e o legado que a Agremiação carrega do Quilombo Saracura, que existiu ali no século XIX.” Falar de ambos os aspectos — interligados — é disputar a história: o primeiro, diante de visões que entendem o Carnaval apenas como espetáculo; o segundo, frente à chegada do metrô no terreiro do samba, deslocando a quadra e gerando um movimento — Mobilização Estação Saracura/Vai-Vai — pela memória e pelo futuro negro do bairro”, falou a autora no podcast Voz Preta.
Durante as escavações do metrô, em 2022, o sítio arqueológico do quilombo foi encontrado sob o chão da agremiação. “As escolas de samba e a religiosidade foram resistência ao racismo, com outro olhar”, diz Claudia.
“O sistema despreza a possibilidade de proteger marcos negros nos espaços urbanos”
“Fico sempre pensando: se ali fosse a igreja Nossa Senhora Achiropita, uma mesquita ou templo budista, alguém em sã consciência projetaria um caminho do metrô que destruísse um patrimônio deste? A Vai-Vai ficou na rua São Vicente por cinquenta anos, transformou-se em referência cultural e turística e simplesmente foi desalojada sem nenhuma proteção institucional ou patrimonial.”
A pandemia do Covid-19 paralisou barracões, desfiles e as festividades de rua por um ano inteiro, causando colapso financeiro em toda força que ousasse movimentar as ruas, Sambódromos, galpões e inferninhos entre o sábado e a quarta-feira da semana que recebe os dias mais profanos e mais sagrados do calendário greco-romano.
Demorou um século para a Gripe Espanhola ser superada em questão de impacto mundial. Desde 1918-1919 o mundo não se abalava com tal magnitude. Os anos-Covid pairaram sobre a indústria do entretenimento como em “Recife Frio”, curta-metragem de Kleber Mendonça Filho em que uma massa fria estaciona em cima de Recife, modificando toda a dinâmica da cidade a partir do clima. Para piorar, tudo isso sob tutela de uma aberração cognitiva que ocupava a cadeira da presidência no mandato anterior.
O primeiro Carnaval pós-gripe espanhola foi descrito pelo escritor Ruy Castro como “a grande desforra contra a peste que dizimou a cidade”. A festa levou 400 mil pessoas às ruas no Rio de Janeiro. Há de se considerar que a população da cidade girava em torno das 1.100.000. Numa época onde o êxodo carnavalesco não era nada comum – as pessoas não viajavam para outras cidades para pular a festa -, podemos colocar o Carnaval do Rio de Janeiro do ano de 1919 como o maior de todos os tempos.
O Carnaval paulistano já viveu dias melhores. Seja nas ruas, por exemplo, durante a prefeitura de Fernando Haddad – com todas as críticas que se deve colocar à sua gestão -; seja no Sambódromo, mais um quesito da apuração que São Paulo perde para a capital carioca. Sob a tutela de Ricardo Nunes, a prefeitura de São Paulo selecionou 100 (repito, cem, uma centena) de blocos para receberem R$ 25.000,00 a serem pagos três meses após o feriado. Descontados seus 6% de impostos, uma centena – repito, 100 (cem) – de blocos terão disponibilizados seus R$ 19.000,00 somente para o Carnaval do ano seguinte. Estipula-se o mínimo de R$ 50.000,00 para se levantar o bloco, seu cortejo, corpo artístico e produção.
O ano de 2024 foi marcado pelo cancelamento de 118 blocos de rua, que denunciam – não a primeira e mais uma vez – o descaso do executivo municipal com os agentes que movimentam os eventos das mais diversas cenas que ocupam a cidade. “Tudo isso é sempre feito muito em cima da hora, com uma burocracia absurda. Quem entrou acreditando que o dinheiro viria até o Carnaval do ano passado, por exemplo, não veio. E quando a secretária de Cultura da cidade foi questionada, neste caso, Aline Torres, qual foi a declaração dela? ‘Pega um ‘emprestimozinho’ aí e espera depois o dinheiro sair para pagar’, disse Thais Haliski, uma das fundadoras da Comissão Feminina, para o portal Uol.
A cena queer propõe ocupação e exercício artístico do Carnaval das mais variadas formas e, na contramão, é a primeira e principal afetada, duplamente refém dos patrocínios privados que chegam aos sete dígitos para estruturas mais tradicionais. Vocês também sabem quem são, seus exercícios de gênero, sexualidade e a cor de suas peles. Dentro os blocos queers que riscaram uma linha no chão e anunciaram seu cancelamento estão Domingo Ela Não Vai e Meu Santo é Pop.
parte 2
Curtir, sorrir, cantar
E dançar pelos salões
Sob o luar deixa rolar
As nossa emoções
—“Até que enfim… o sábado”, samba-enredo da Rosas de Ouro (1990)
A Novo Affair está apenas em sua terceira edição e já entregou mais que o fantasioso Ministério do Namoro que o Lula prometeu. Desde outubro de 2023 a festa já recebeu a meio-Maori-meio-neozelandesa Lady Shaka e o americano MikeQ. Em seu terceiro rompante e terceira atração internacional, a Novo Affair recebeu os chilenos Aerobica em sua terceira locação.
Eu estava lá quando começou a primeira música e só saí quando aquela quadra ficou em silêncio, mais de quatorze horas depois. Os adereços tradicionais da Rosas de Ouros, com suas rosas no teto e seu tule rosa e azul, contrastavam com o palco desenhado pela dupla Luzco na edição de Carnaval da festa. Sua estrutura emulava um trio elétrico que brilhava em luzes coloridas que, com andares e passarelas, que receberam mais de vinte performers do corpo que abriam-alas no meio da multidão que se esbarrava no front.
Esse talvez seja o ponto alto da festa: seu apreço aos performers, das mais diferentes abordagens, técnicas e estilos de dança e performance. O palco da Rosas de Ouro recebeu mais de 20 performers que, com fôlego de quem tem muito pulmão, hipnotizaram o público por grande parte do sábado e do domingo. Destaque para a diversidade de corpos e a exaltação da cena Ballroom da cidade, que acompanha a festa desde a Fábrica de Impressões. Primeira Emenda da Constituição clubber da cena queer, a Ballroom e suas estruturas proveram acolhimento e emancipação para jovens LGBTQIA+ empurrados para a vulnerabilidade. Não conhece, boba? Assista “A Rainha” (1968), de Frank Simon, “Paris is burning” (1990), de Jenny Livingston e “The Face of Ball” (2021), da carioca Alita Blackyva.

Apesar do calor do Vale do Flegetonte, o último dos círculos do “Inferno” de Dante – eu derreti o suficiente para encher duas garrafas pet – a pista se manteve entre cheia e MUITO lotada desde Tuxe até Machado. Às vezes não há ventilador que dê conta quando a Abacaxi bate e – talvez, eu disse talvez – o suor seja o elemento X de de dias, noites e madrugadas como essa do 3 de fevereiro.
Com seu jeitinho quieto, Tuxe abriu os trabalhos com sua pesquisa diversa e consistente, que ele exibe sem nenhuma pretensão em festas como Versa, onde é residente. Sendo interrompido por uma queda de energia – o único inconveniente que chegou aos olhos do público -, Tuxe retorna com a carga de um novo gerador de energia com a ótima “Alarma”, dos alemães 666. (Essa tocou mais duas vezes na noite. Deixa baixo). Iago, embora fale baixo, gritou alto o suficiente e trouxe um corpo de baile completo dos blocos que ocuparam as ruas dos blocos da cidade. Depois de suas duas horas, a Rosas de Ouro já estava cheia e com fila na porta.
Aqui eu vou ser obrigado a cometer uma indelicadeza com Bruna e Lívia, os nomes por trás do duo From House to Disco. Minha dupla dessa maratona clubber foi derrubada por uma forte enxaqueca, daquelas que vira responsabilidade compartilhada, sabe? Foi quase que instantâneo: foi a dupla dar o play em sua primeira faixa que fui convocado para fazer companhia em duas horas sentado quietinho no canto, com direito a remédio, gelo na nuca e um sonoro “não” aos pedidos de novas doses de substâncias inebriantes. Infelizmente esse foi o front que não consegui estar. Foi a hora do cigarrinho e de descansar as pernas. Só ouvi coisas boas. Essa eu fiquei devendo, mas vou pagar.
Os nomes por trás da fina – finíssima, diga-se de passagem – ODD dispensam apresentações. Vermelho e Zopelar esfregaram sua pesquisa alucinante na cara de uma pista que, a essa altura, se preparava para o segundo round de seus ziplocks. Depois de, individualmente, ocuparem as pick-ups das primeira e segunda edição, o back to back ganhou meu sorriso já quando foi anunciado. Deram o nome com uma chuva de House do mais fino e sincero. Só não foi mais incrível porque tava na cara que ia ser muito bom.
Seguindo sua tradição de atrações internacionais, Novo Affair convocou os chilenos Nico Castro e Pepo Fernandez, do duo Aerobica, para desgastar ainda mais os quadris já cansados do público. E isso eles sabem fazer demais. Só quem viveu o set dos moços no Festival Gop Tun 2022, lá na pistinha pequena do canto, sabe o que eu tô falando. Com direito a apenas um aperitivo de sua “Sex in Heaven”, com sample bate-estaca de “Party Time” dos espanhóis Locomia, os Aerobica seguiram sem dó nem piedade.

Agora, isso aqui é elite. Eu literalmente dei um grito quando, ainda em dezembro, fiquei sabendo que esse back 2 back aconteceria. Esse parágrafo é para te fazer uma súplica: qualquer line up que tenha escrito “Paulete Lindacelva” ou “Badsista”, vá. Seja embaixo de viaduto, no topo de prédio, inferninho, barco, só vá. Às duas da manhã, nos lembramos que ainda tinha muita música pra rolar que o som desligasse.
Com um remix engraçadinho de “A Roda”, de Sarajane, Paulete Lindacelva começou seus trabalhos com Badsista lembrando a todos que a dupla pode fazer o que quiser quando assume as CDJs. Depois de dez horas de festa, o back 2 back abriu uma rachadura no chão para onde fomos atraídos como em “Perfume – A história de um assassino” (2006), de Tom Tykwer, deixando para trás qualquer apreço à moral, os bons costumes a aos nossos rins. Esse foi o maior acontecimento da noite.
Em segundo lugar e muitíssimo pouco atrás, Mirands, do coletivo Batekoo, mistura seu senso de humor e seu domínio de pista para nos lembrar que – embora não oficialmente-, já é Carnaval. Com seu remix de “Dançando” – de Ivete Sangalo – de House Worker, o soteropolitano abriu seu set provocando urros, gritos e aplausos. Seja no techno da Dando ou no Festival Batekoo, Miranda sabe exatamente onde está espetando seu pendrive. Nunca saí de um de seus sets com a sensação de “quase lá”.
A Novo Affair combinou de nos matar e nós combinamos não morrer. Depois de treze horas de festa, mesmo com um terço dos presentes de seu auge, a pista se mantinha atenta e forte para o último daquela manhã. Não é uma tarefa fácil manter mesmo o clubber mais dedicado disposto a dançar depois de treze horas de festa. Às vezes basta uma track errada para convencer aquele indeciso que é a hora de ir embora, seja para cama, seja para o after.

Machado laçou os restantes, reviveu o palco e garantiu uma folga na fila do Uber. Breno, do coletivo Odsy, deu o brilho final ao tempo de mesa estrelado. Depois de uma sequência de Kevin, o simpático Machado fugiu do House que dominou a noite e encerrou a Novo Affair deixando brilho nos olhos e suspiros decepcionados ao fim de sua última música. Também arrisco dizer que renovou os ânimos de alguns (muitos) animados que encontrei no bloco apenas três horas depois.
É um rojão difícil de segurar para produzir uma festa para 4.000 pessoas e, por isso, a Novo Affair merece uma estrelinha dourada. Um salve para Gabriel e Lucas, anfitriões da noite; Renan e Jazon, que silenciosa e discretamente resolveram pendengas; e a todos os trabalhadores da noite responsáveis por uma entrega de serviço de qualidade do início ao fim. Além do ótimo staff, a Novo Affair é uma ótima pista para se apaixonar. Algumas vezes na mesma noite.
Te vejo em abril, Novo Affair.
Tudo de novo no front é um projeto multidisciplinar que investiga a noite paulistana e o centro da cidade com um recorte queer. Acompanhe a página do projeto no Instagram.
Alexandre Mortagua é carioca, Escorpião com ascendente em Touro e gosta de dançar. “Tudo de novo no front” é seu terceiro projeto de longa-metragem. Também é uma extensa pesquisa sobre a noite queer do centro de São Paulo. Escritor, diretor, roteirista e produtor executivo, Alexandre realizou os filmes “Todos nós cinco milhões” (2019), “Ritual na Bahia” (2021) e “Quando o manto fala e o que o manto diz” (2023). Pela Philos, publicou sua estréia na literatura, “Aqui, agora, todo mundo” (2022) e prepara seu novo romance “Anuário” (2025).